terça-feira, 4 de janeiro de 2011

De Forma Indolor

Na Bíblia (Gênese 2, 21), temos: ‘Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar‘. Esse trecho bíblico que cita as circunstâncias do nascimento de Eva (uma espécie de sequela daquela cirurgia) serviu de argumento ao famoso médico escocês James Young Simpson (1811-1870) para se defender dos fanáticos da Igreja Calvinista de Edimburgo. Eles diziam que a Bíblia determinava que a mulher deveria ter seus filhos com dor. Como Simpson realizara o parto de uma jovem utilizando anestésico, foi um perereco danado para ele dar um jeito de não ser condenado pela Igreja. Com aquele argumento bíblico (‘se até Adão foi anestesiado‘), Simpson fundiu a cuca dos fundamentalistas.

Em 1591, três séculos antes da cirurgia feita por Simpson, uma jovem mãe de Edimburgo que dera à luz filhos gêmeos foi enterrada viva simplesmente porque pedira alívio para a dor. A Igreja executou-a daquele modo bárbaro por ela não aceitar de forma submissa a dor do parto.

O caso de Sir James Young Simpson (isso mesmo: ele virou ‘Sir‘) só foi superado quando a Rainha Vitória aceitou ser anestesiada com clorofórmio pelo médico John Snow (1813-1858), quando do parto do príncipe Leopoldo, em 1853. A partir de então, os fanáticos calvinistas fecharam o bico sobre aquele papo de parto com dor e a anestesia ficou consagrada.

A palavra ‘anestesia‘ vem do grego e significa ‘falta de sensação‘. O conceito da anestesia é milenar. Os antigos chineses já utilizavam técnicas de acupuntura para anestesias. Os romanos e os egípcios usavam a raiz da mandrágora para indução à inconsciência. A mandrágora, com o mesmo objetivo, também foi utilizada por médicos da Idade Média. Já os incas usavam o sumo das folhas de coca para entorpecer os doentes. Sempre se tentava um jeitinho para eliminar a dor, embora poucas vezes com sucesso.

Somente no século XIX tiveram início as pesquisas em larga escala para a descoberta de anestésicos eficazes. Entretanto, alguns passos anteriores importantes foram dados. Em 1275, o alquimista catalão Raimundo Lúlio (1232-1315) descobriu que a destilação da mistura de ácido sulfúrico com álcool produzia um fluido branco adocicado - o éter. O interessante é que a sua utilização como anestésico só ocorreu seis séculos mais tarde, embora Paracelso, pseudônimo de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, famoso alquimista e médico suíço, tenha, em 1605, utilizado o éter para o alívio de dores. Em 1772, o químico inglês Joseph Priestley (1733-1804) descobriu o óxido nitroso, mais tarde chamado de gás do riso. Esse gás, talvez integrante da atmosfera de Brasília, não foi identificado por Priestley como agente anestésico, o que só ocorreria posteriormente.

Nos primeiros hospitais da Inglaterra, antes da descoberta da anestesia, a sala de operações ficava no último andar para ser melhor iluminada por uma claraboia, e as portas eram pesadas e grossas para que os gritos do paciente não fossem ouvidos externamente. Bom cirurgião era aquele que era rápido. Consta que o cirurgião de Napoleão era um craque - realizava qualquer amputação em menos de um minuto. Muitas cirurgias naquela época eram também realizadas por barbeiros (‘cirurgiões-barbeiros‘), que, frequentemente, cometiam graves barbeiragens. Captou?

Até hoje, o crédito de quem foi o inventor da anestesia é um assunto controverso. Para alguns autores foi o médico americano Crawford Long (1815-1878), que utilizou inicialmente o éter como anestésico. Para outros, o mérito cabe ao inglês Humphry Davi (1778-1829), um jovem brilhante e que também era poeta - e dos bons. Aos 21 anos, ele publicou uma obra detalhada sobre as propriedades anestésicas do óxido nitroso, o gás hilariante. Esse rapaz era tão genial que, durante as guerras napoleônicas, recebeu permissão especial para ir a Paris receber um prêmio.

Nessa história toda há outros personagens geniais, muitos de mau caráter e que se envolveram em ridículas disputas judiciais pela primazia de descobertas. Infelizmente, muitos deles acabaram viciados nas drogas que usavam como anestésicos. Era comum, naquela época, festinhas com inalação de éter ou gás hilariante. Alguns indivíduos enlouqueceram e outros se suicidaram por causa do uso intensivo dessas drogas.

Depois veio o clorofórmio e, em seguida, a cocaína. Um dos pioneiros do uso da cocaína como anestésico injetável foi o famoso cirurgião norte-americano William Steward Halsted (1852-1922), do Hospital John Hopkins, que se tornou viciado nessa droga.

Felizmente, a cocaína foi substituída pela novacaína, sintetizada em 1899 pelo químico alemão Alfred Eihorn (1856-1917).

Enfim, essa história não termina: a cada dia temos novas descobertas contra as dores da humanidade, num mundo cada vez mais doente e, paradoxalmente, insensível.

Adalberto Nascimento é engenheiro e escreve a cada duas semanas no Jornal Cruzeiro do Sul - Sorocaba-SP